Vista

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Vista do Senhor da Capelinha

6 de agosto de 2012

Nascido na Rua da Encruzilhada (agora é que eu entendi a origem do meu fado…) em Domingo frio de S. Sebastião fui levado, à minha revelia, para as terras quentes de África e lá criado desde os meus dois anos de idade. Sem dar conta disso, naquele gelado Domingo de S. Sebastião, nascia também a minha paixão por Vilar de Maçada. Uma paixão que me tem acompanhado ao longo da vida. Uma paixão que me conforta a alma e que muitas vezes me serve de último reduto. Recordo-me que em momento difícil da minha vida em Angola, “rodeado” durante uns meses apenas por quatro paredes e uns cigarros para queimar o tempo, era em Vilar-de-Maçada que pensava para achar o alento e o “norte” para a minha vida. Foi a minha âncora. Com o passar dos anos – lembra-me o calendário pendurado nas artroses (estou a exagerar, como, aliás, convém à escrita) que por mim já passaram muitos – mantém-se cada vez mais viva essa paixão. Não sei quando se esvairá. Tenho uma única certeza: acabará os seus dias junto a mim e repousará comigo para sempre naquele jardim de silêncio e cedros, granitos e mármores que fica bem lá ao fundo do Largo do Adro paredes meias com os vinhedos da Quinta de Favaios.


Quem sou eu!? Bom, pela foto ao lado, creio ser fácil tirarem-me pela pinta… Mas eu adianto-me. O meu avô do lado do meu pai era o Edmundo, guarda nacional e músico nas horas vagas (e foram muitas…), a minha avó era a Isaura (que dizem, representava muito bem). O meu pai era, naturalmente, o Manel do Edmundo e eu, claro…, para os mais antigos, sou o filho do Manel do Edmundo. Do lado da minha mãe o meu avô era o Hermínio Sampaio, funcionário das finanças, irmão do Jassé, Domingos e do Abel Sampaio (pai do “Máriozinho” – que saudades tenho do Mário! Era um homem de rara sensibilidade, amante da vida e de Vilar de Maçada), e a minha avó era a Avó Corina (eram sete irmãs e três irmãos, a Graça, a Dúlia, a Maria Luísa, a Josefa, Filomena, a Olímpia, o Leopoldo, o José e o Joaquim – destes meus tios-avós só conheci a Maria Luiza – avó do meu primo Alfredo Mota). A minha mãe é a Dúlia (fez no mês passado 88 anos). Conheço melhor a família do lado da minha mãe e, confesso, sinto com este lado uma maior afinidade. Que do outro lado ninguém me leve a mal. Aliás, o apelido por que sou conhecido é do lado da minha mãe – Sampaio. E quis preservá-lo dando aos meus 2 filhos, o Nuno e o Miguel, o apelido de Sampaio quando o apelido natural seria o de Silva (o meu nome).
Este lugar que agora crio é o meu preito a Vilar de Maçada – terra, sem dúvida, abençoada! É o meu Largo do Adro. O nosso Largo do Adro. Palco de bailes e bailaricos. Ainda é! Antigamente palco de renhidos jogos da bola, do loto, do pião. Palco de muito teatro em tempos já há muito idos, feito por gente da terra. Hoje e sempre o ponto de encontro dos vilarmaçadenses. Dos que por lá passam a caminho do cultivo das vinhas que de socalco em socalco abraçam Vilar de Maçada. Dos que lá estão. Dos que aos Domingos vão à missa com o Senhor da Capelinha no coração, dos que ficam à conversa de baixo da acácia no café do Teixeira ou mais acima à porta do café do Zé Figueira. Conversas para matar o tempo. Conversas de maledicência para matar o vício… de maldizer e bem-dizer. Conversas. Conversas com vagar. Conversas com vagar de gente sem vagar quando se trata de granjear a vinha e a vida. Palco de murmúrios e memórias…
Porto de chegado dos que, como eu, pela Festa, lá vão matar saudades.
Este “Largo do Adro” é uma praça aberta a todos aqueles que nela queiram entrar, estar e desfrutar de “Vilar de Maçada”, com comentários, com escritos, com fotos (quer actuais, quer antigas), com sugestões e ideias que tenham como único sentido o de promover e melhorar Vilar de Maçada.
Gostaria que este sítio se transformasse numa espécie de arquivo fotográfico da nossa terra e da nossa gente (de hoje e dos nossos antepassados). Constituir assim, pouco a pouco, um “acervo histórico” (passe a imodéstia) de Vilar de Maçada acessível a qualquer um e que possa, quem sabe, um dia servir de fonte a algum trabalho histórico sobre a nossa Vila de Villar de Massada – assim se escrevia em tempos muito remotos.
Divulgar os “eventos” (como agora se diz) e outras realizações de interesse que venham a ter lugar na terra, em particular esse acontecimento cimeiro e único que são as Festas do Senhor da Capelinha e Santa Bárbara, é também outro dos meus objectivos.
Tenho pouco tempo de Vilar de Maçada. Saí muito pequenito. O meu tempo de Vilar de Maçada era o tempo das férias de quando cá estudei 2 anos (um ano no Porto e outro em Coimbra) e, desde que regressei definitivamente, as minhas surtidas pela Festa. Não me recordo de ter passado mais de 3 meses seguidos. Com muito pena minha acabei por não adquirir o sotaque e o vocabulário tão rico desta nossa zona, embora o reconheça com facilidade. Creio que o vocabulário se está a perder. Se este sítio servir para o reavivar e fixar ficaria muito contente – e já vai longo este cibo de prosa...
Este “Largo do Adro gostaria que fosse um terreiro daqueles que cultivam o amor a Vilar de Maçada e dela se orgulham.
É grande a ambição. Minguar-me-á o jeito e a capacidade. Mas vamos a isso!?
Ps: Apenas me reservo o direito de remover eventuais comentários que considere desprimorosos para a terra ou para qualquer vilarmaçadense. Confio que tal não será nunca necessário.

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