Mosteiro da Batalha - Túmulo de Martim Gonçalves de Maçada
A
história, porém, não a comprova. Como se sabe, já antes, muito antes de 1385,
data da memorável Batalha contra os Castelhanos, havia referências escritas à existência
de Vilar de Maçada. O Foral de Afonso III de 1253 dá-nos conta da existência da
«Parroquia», entre outras, «de Santa Maria de Villar de Massada» como fazendo
parte do então «Julgado de Panoyas, com as quais o Hospital (Ordem dos
Hospitalários) tem as suas possessões». Não há quaisquer dúvidas que esta
«Parroquia de Santa Maria de Villar de Massada» do «Julgado de Panoyas» é a
nossa Vilar de Maçada. Tendo a Batalha de Aljubarrota ocorrido em 1385 e, como
acabámos de ver, existindo já Vilar de Maçada com o nome de Santa Maria de
Villar de Massada, a encantadora lenda que teria originado o nome de Vilar de
Maçada não passa disso mesmo, de uma lenda. Mas as lendas, ao contrário do que
muita gente pensa, em particular aquela mais apegada ao real, não são uma pura
ficção, não florescem do nada, têm, sempre, algo a ver com uma determinada
realidade, inspiram-se nela, exagerando-a frequentemente, distorcendo-a não
menos vezes. Alguma coisa terá aquele valoroso feito, ou o próprio Martim
Gonçalves, ou ambos, a ver com Vilar de Maçada. Os de Macedo Cavaleiros reivindicam
que o Martim Gonçalves sepultado na Batalha é Martim Gonçalves de Macedo e não
de Maçada. Ora, de acordo com placa que assinala o túmulo estará ou estaria
inscrito na própria lápide do túmulo que Martim Gonçalves de Maçada salvou o
Rei D. João I de morrer na Batalha de Aljubarrota. Infelizmente o túmulo está
hoje, como se pode ver na imagem acima, muito erodido pelo tempo e pelos
estragos e não nos pode socorrer neste tira-teimas. Mas, não é seguramente
alheio a esta lenda a existência de palacete que todos conhecemos – verdadeiro
“ex-libris” – da nossa aldeia, com um brasão onde está esculpido um fidalgo com
uma maça e, menos ainda, que o Brasão de Armas da Vila de Vilar de Maçada
ostente uma massa ou maço de guerra.
No
entanto, a verdade inegavelmente histórica, é que Vilar de Maçada já existia
antes desse tal feito de Martins Gonçalves de Maçada com o histórico e
inegavelmente bonito nome de Santa Maria de Villar de Massada.
Mas
qual, então, a origem do nome Massada? É ainda mais interessante a história que
está por detrás deste nome.
A
fundação da nossa nacionalidade, como sabemos, está intimamente ligada às
Cruzadas e à participação de Cruzados na reconquista de diversas cidades aos
Mouros (Lisboa, foi bem o exemplo dessa decisiva ajuda dos Cruzados). Em
recompensa dessa decisiva ajuda os Reis outorgavam aos Cruzados e às Ordens monástico-militares
que os enquadravam, para além dos despojos das guerras, consideráveis partes do
território sobre as quais as Ordens passavam a exercer o seu domínio. Entre
outros, o território que hoje ocupa a freguesia de Vilar de Maçada foi concedido,
muito provavelmente por D. Teresa ou durante o reinado de D. Afonso Henriques
(período de grandes concessões às Ordens religiosas nascentes), à ordem dos
Hospitalários, conforme testemunha o “Livro
dos Forais, Escrituras, Doações, Privilégios e Inquirições”. Fundada em
1099 com fim de dar guarida aos peregrinos que se dirigiam à Terra Santa com o
nome de Ordem do Hospital de São João de Jerusalém, passou a denominar-se Ordem
de Malta em 1530 por ter sido acolhida na Ilha de Malta após a ocupação
muçulmana de Jerusalém.
A
existência de dois marcos na nossa freguesia (um em Cabêda e outro na
Sanradela) com as inscrições ainda visíveis da Cruz de Malta parece querer
assinalar as fronteiras deste domínio e a comprovar esta tese. Ligando a
existência destes marcos com a inscrição da Cruz de Malta ao teor irrefutável
do Foral de 1253, parece, hoje, inquestionável que Vilar de Maçada, ao tempo,
foi um domínio da Ordem dos Hospitalários. E também não é seguramente alheio a
esta circunstância o facto de o Brasão de Armas de Vilar de Maçada, juntamente
com o maço…, ostentar a Cruz de Malta.
Os
cavaleiros da Ordem dos Hospitalários, muitos dos quais conheciam bem a Terra
Santa porque lá haviam combatido, a este nosso povoado, com origem mais remota
na época dos Romanos (que o lajedo da rua da Encruzilhada era um eloquente
testemunho), tê-lo-ão denominado de Santa Maria de Villar de Massada
atribuindo-lhe o nome de uma cidadela histórica, já na naquela época milenar,
da Terra Santa: Massada (aliás, o mesmo se passou com um outro povoado em
Mirandela, Romeu, a que atribuíram o nome de Jerusalém de Romeu).
"Neste
topo da colina, Jônatas, o grande sacerdote, construiu uma fortaleza que
denominou Massada: depois disso a reconstrução do local foi realizada em grande
parte pelo rei Herodes." (A
Guerra dos Judeus,
Livro VII, capítulo VIII)
A fortaleza de Massada na Terra Santa reconstruída pelo Rei Herodes
Massada era uma fortaleza, edificada num planalto, rochoso e escarpado com
vista deslumbrante sobre o Mar Morto construída pelo grande sacerdote Jônatas e
anos mais tarde, entre os idos de 39 e 30 aC, renovada pelo Rei Herodes que
mandou edificar vários palácios (oito), com claustros, casas de banho luxuosas,
várias cisternas, despensas para guardarem cereais e outros alimentos e que
teria por fim último, adianta o grande historiador dessa época Flavius Josephus,
de lhe servir de refúgio caso a Judeia viesse um dia a ser invadida por
Cleópatra, rainha dos Egípcios, ou no caso de vir a ser deposto pelo próprio
povo. O acesso ao planalto era naturalmente sinuoso. A estrada que lhe dava
acesso chamava-se e ainda hoje se chama “a cobra”.
A "Cobra": estrada sinuosa que, além do teleférico, ainda hoje serve de acesso à fortaleza
Nessa
longínqua época, a Judeia era uma província do império Romano. Havia sido
definitivamente anexada e ocupada por Pompeu, imperador romano, no ano 63 aC. Apesar
da opressão, dos impostos elevados e da crueldade imposta pelos romanos só um
século mais tarde, entre os anos 66 e 73 dC, eclodiu a primeira grande rebelião
contra os romanos cujo rastilho, como sempre acontece, foi um excesso de tributos
impostos pela administração romana. Essa insurreição foi liderada pelos judeus
zelotas – os primeiros a incitar o seu povo à revolta e os últimos resistir à
contraofensiva romana. A rebelião não foi bem sucedida e os judeus revoltosos
foram severamente punidos e perseguidos e o Segundo Templo (o primeiro era o
Templo de Salomão) foi destruído pelos romanos tendo apenas restado o que é
hoje o Muro das Lamentações (ano 69 dC). É então que um grupo de zelotas, 960
ao todo, chefiados por Elazar Ben Ya’ir, ocupa e refugia-se durante alguns
anos, exactamente, na fortaleza de Massada continuando a partir daí a resistir
ao domínio romano. D’ali, de Massada, aquele grupo rechaçou todas as tentativas
levadas a cabo pelos romanos para conquistarem aquela fortificada cidadela. Até
que um novo governador romano Flavius Silva, no ano 72 dC, decidiu que poria
termo, de uma vez por todas, a esta resistência. Reuniu a Décima Legião (cerca
de 15.000 homens), e, ajudados ainda pelos judeus que Roma fizera prisioneiros,
sitiou a fortaleza com vista à sua tomada. Durante meses construíram uma rampa de
pedra (que ainda hoje se conserva e é usada para acesso à fortaleza pelo lado
oeste) que cobriu o vale inteiro para poderem aceder à fortaleza. Com arietes lograram
derrubar uma parede da fortificação mas logo os sitiados levantaram uma outra.
Os Romanos incendiaram esta última e prepararam-se para tomar de assalto a
fortaleza. A derrota dos zelotas tornou-se inevitável. Nessa noite Elazar
reuniu o grupo e exortou-os a cometerem um suicídio colectivo de forma a não
caírem nas mãos dos Romanos e, em consequência, serem escravizados de novo.
Cada homem mataria a mulher e os filhos e depois suicidava-se. Assim o fizeram,
nesse dia 2 de Maio do ano 73 dC. Sobreviveram duas mulheres cinco crianças que
se esconderam atrás de uma das cisternas e contaram a história que ficou para a
posteridade através da pena de um historiador contemporâneo dessa época, Yosef
Ben Mattityahu, judeu romanizado que, após se tornar um cidadão romano, recebeu
o nome de Tito Flávius Josephus. Este historiador escreveu a Guerra dos Judeus onde
nos conta o longo historial da guerra entre os judeus e romanos.

Daqui pode ver-se (1º plano) a rampa construída pelos romanos para o assalto a Massada
Esta
é a extraordinária história de Massada da Terra Santa e a história muito
provável da origem do nome de Santa Maria de Villar de Massada – hoje Vilar de
Maçada. Não é uma lenda tão encantadora como a do maço de Martim Gonçalves de
Macedo mas é uma história real.
Massada,
mercê de toda esta história de resistência à ocupação romana com quase dois
milénios e da sua particular e inverosímil localização e arquitectura, é hoje Património
Mundial da Humanidade. Depois de Jerusalém e dos Lugares Santos é o lugar mais
visitado pelos turistas.

Porque motivo terão escolhido os Cavaleiros Hospitalários o nome de Massada e não
um nome de uma outra cidadela da Terra Santa? Não sabemos, claro. Olhando para
a configuração do penhasco escarpado onde se situa Massada e a
configuração de Vilar de Maçada não parece haver pontos comuns. Uma é
visivelmente íngreme e desértica e a nossa Maçada é, hoje, verdejante e está
longe de ser uma escarpa. Mas… não nos esqueçamos deste relevante indício: a
ermida do Senhor da Capelinha é indubitavelmente – e naquela época mais ainda o
era – escarpada e rochosa. Terá sido esta a razão? Talvez. Atentemos ainda, e a
grosso modo, no seguinte: Massada fica situada a 400 m de altitude, Vilar de
Maçada a 488 m altitude; O acesso a Massada da Terra Santa, além da rampa
construída pelos romanos, era e é uma estrada sinuosa, a tal “cobra”. Os
acessos a Vilar de Maçada ainda hoje são igualmente serpenteados. Vilar de Maçada
à época não seria desértica como Massada mas era seguramente xistosa e menos
verdejante do que é hoje. Do cimo de Vilar de Maçada o que se avista não é,
claro, o Mar Morto como em Massada mas é um mar de serras a perder-se no
horizonte que o nevoeiro de certos dias acentua.

Por tudo isto, pouco me admira,
e estou disso convencido, que, aos olhos dos Hospitalários quando ali chegados,
aquele povoado lhes tenha feito lembrar a Massada da Terra Santa que haviam
deixado e em razão disso tenham dado o nome de Santa Maria de Vilar de Massada.
Não
era bonito Vilar de Maçada voltar à sua grafia original? Por mim…